Retrato do Artista Enquanto Uma Coisa

O embrião desse projeto ganha os primeiros contornos quando Fóssil ainda era um menino que passava férias escolares no interior do estado de SP, na casa do avô materno, Gino Leôncio, um italiano de Pádua.

A caminho do mercado o velho coletava parafuso, arame amassado e prego enferrujado; depois tudo era pendurado no beiral da varanda dos fundos. Da edícula o garoto vibrava com os móbiles movidos à ventania - os filmes ao vivo do vovô. Foi seu primeiro contato.

Inicialmente, a influência mais marcante foi o livro Memórias de um Cabo de Vassoura (Orígenes Lessa); depois vieram o clássico Gramática Expositiva do Chão (Manoel de Barros), o LP Crucificados pelo Sistema (Ratos de Porão), Chão de Estrelas (Mutantes), a velha Asahi Pentax Spotmatic e Portinari (Arte é Comunicação).

Esse compêndio foi decisivo para o despertar do autor para o microscópico mundo "trash metal" que povoa a camada asfáltica que deu origem à série Fósseis Fecundos e seus deslocamentos.

Fóssil inicia estes registros temáticos lá pela década de 1990, tendo como foco a Arqueologia Industrial. A coleção conta com registros de objetos "invisíveis" fossilizados na camada asfáltica de cidades como São Paulo, Guarulhos, Rio de Janeiro, Bauru, Palmas, Porto Alegre, Barcelona, Lisboa, New York, Montevideo, entre outras cidades espalhadas pelo mundo.

Professor e jornalista (arqueólogo ou cenógrafo ?) o autor efetua em geral o registro fotográfico dos objetos ao se dirigir para seu local de trabalho, ontem e hoje, como na Escola de Música do Sesi Leopoldina, Centro Cultural Fiesp, Rádio USP, Escola da Prefeitura etc. As joias da coroa são os Sítios Arqueológicos Vila Fátima, no quadrilátero que compreende as ruas Maria de F. Kida, Duque de Caxias, Ibiraiaras e Vacaria, em Guarulhos e Mário de Andrade, localizado no cruzamento da Av. São Luis e Rua da Consolação, no centro de SP.

Algumas das figuras metalizadas foram reproduzidas em paredões numa versão primitiva do stencil monocromático. O grafite comportamental representa, neste caso, a extensão das imagens que possibilita o transporte de matéria. A proposta de ampliar os objetos, adicionando um leque de cores primárias, visa destacar significados por vezes abstratos e ainda não revelados.

Fóssil fez uma parte de suas intervenções no bairro rural de Amandaba-Machado de Melo, onde a ocupação da antiga e abandonada estação ferroviária deu origem à "Caution Galeria Ruindo".

​No decorrer do processo, a série Fósseis Fecundos foi sofrendo diversas mutações ou mutilações e se desdobrando em novas linhas de trabalho, como "Hobbyjeto" (manchão) e "Fóssil Original Collection - FOC You" (joias).

A continuidade vem com a construção do "Alfabeto Fóssil" a partir de fontes e tipos detectados na manta asfáltica das metrópoles e Livros para Descolorir, que consiste em apagar simplesmente tudo, principalmente livros, especialmente clássicos numa busca incessante por respostas que nunca chegam a partir de imagens sobrepostas que remetem a encontros impossíveis, elos perdidos etc.

Uma possibilidade da série Fósseis Fecundos é contribuir para decifrar os fósseis que habitam a superfície da manta asfáltica, compondo um conjunto de signos e significantes, além de promover uma espécie de inventário inútil das civilizações modernas através de mensagens escondidas sob nossos pés: Deprechão, Comunicachão, Catalogachão.

​Para o autor, "os fósseis representam os seres humanos 'Fossilizados pelo Sistema', apresentando uma estreita e bizarra ligação com a fossilização dos sentimentos. São questões que permeiam as diversas fases desta operação que tem por objetivo a fundamentação de conceitos diversos, especialmente a solidão".

​Exposições acerca do Projeto Fósseis Fecundos já foram realizadas em cidades como Guarulhos (Grande Salão de Exposições do Adamastor Centro), São Paulo (Casa Nubam, Vila Madalena; Casa de Cultura Municipal de Vila Guilherme - Casarão), e Mirandópolis SP, SobreXposição (Galeria Marconato) e Fossibilidades (Comunidade Yuba).

No segundo semestre de 2017 Fóssil lançou o catálogo "Mão de Cal" pela Editora Criativo.